Fundadora e CEO da RHF Talentos, Renata Freires transformou uma infância de poucos recursos, um casamento desfeito e uma empresa endividada em uma rede que reúne centenas de franqueados em quase todo o país. Sua trajetória passa pela venda de disquetes, pela criação de um negócio de recolocação profissional e pela decisão de assumir o comando de uma operação em crise, um movimento que mudou a empresa e a vida dela para melhor.

O trabalho veio antes dos planos

Algumas trajetórias começam com um projeto claro. A de Renata Freires começou com a necessidade de construir outro caminho. Hoje à frente da RHF Talentos, a maior franquia de recursos humanos do Brasil, ela chegou à liderança depois de atravessar mudanças pessoais, crises empresariais e uma reestruturação que redesenhou o negócio.

A história começou em uma família simples de Curitiba. Filha de um encanador e eletricista e de uma funcionária pública, Renata cresceu vendo os pais sustentarem a casa com pouco estudo e muito trabalho. Aos 14 anos, conseguiu o primeiro emprego como repositora de supermercado. Depois, trabalhou em uma padaria e interrompeu os estudos aos 15 anos.

Ainda adolescente, já carregava uma inquietação que não desapareceu com as dificuldades. Queria estudar, trabalhar e construir uma vida diferente daquela que conhecia. O primeiro passo veio cedo, mas o destino profissional ainda estava longe de aparecer.

“Eu falo que a minha infância trouxe para mim o pilar do trabalho. Meus pais sempre trabalharam honestamente para trazer o sustento para casa”.

Foi de um disquete que nasceu o negócio

A primeira experiência empreendedora de Renata surgiu quando o computador começava a entrar na rotina das famílias. Aos 18 anos, já casada, ela e o então marido passaram a vender disquetes. O negócio durou cerca de um ano, até a demanda perder força com o avanço da tecnologia.

A tentativa abriu espaço para outro negócio. O casal criou um escritório de assessoria de carreira, voltado à recolocação profissional. Na época, Renata cursava Administração e ainda não dominava o setor de recursos humanos. Aprendeu na prática, contratando psicólogos e analistas e acompanhando de perto a operação.

A empresa durou dez anos e foi decisiva para sua formação profissional. Foi ali que Renata começou a construir a experiência que mais tarde daria origem à RHF Talentos.

“Eu não entendia do negócio, mas fui aprendendo. Conforme fui contratando os profissionais, fui descobrindo como trabalhar e essa foi a minha grande escola”.

A empresa precisou nascer de novo

Foi a partir dessa experiência com recolocação profissional que surgiu a próxima aposta. Depois de dez anos à frente do negócio, Renata e o então marido estavam morando no interior de São Paulo quando perceberam o avanço de novos modelos no mercado de empregos pela internet. A solução que encontraram foi vender a casa e voltar para Curitiba, cidade natal de Renata, em 2006, para investir em uma operação de franquias.

O primeiro projeto, porém, não estava pronto para ser replicado. Sem uma estrutura de franquia validada, a operação não conseguiu conquistar compradores e quebrou em seis meses. A virada veio em 2007, quando a ABF orientou a reestruturação do modelo.

A partir daí, Renata passou a defender uma visão diferente sobre o papel da franqueadora. Para ela, vender uma unidade não encerrava a responsabilidade sobre aquele negócio. Era preciso ensinar, treinar, acompanhar e investir em tecnologia para que o franqueado tivesse condições de prosperar. Esse princípio viria a sustentar, mais tarde, um dos pilares da RHF Talentos: abrir espaço para quem nunca havia empreendido antes. Para Renata, o negócio existia para dar a essas pessoas a chance real de realizar o sonho de ter o próprio empreendimento, propósito que a moveu a fundar a empresa.

“Se a gente dá a mão, ensina, treina e investe em tecnologia, o franqueado vai performar melhor.”

Em algum momento, ficar virou uma decisão

Enquanto a empresa avançava, a vida pessoal de Renata entrava em um período de ruptura. A maternidade, as dificuldades familiares e os cuidados com os filhos ampliaram a pressão que já existia dentro e fora da empresa. Em 2010, ela teve o primeiro filho, que aos 4 anos foi diagnosticado com autismo. Em 2015, ela engravidou de trigêmeas. As meninas nasceram prematuras, uma delas morreu pouco mais de dois meses depois do parto, e outra passou por quatro cirurgias intestinais, deixando a UTI somente três meses depois, com uma bolsa de colostomia.

Essa experiência marcou o início de uma maternidade atípica que segue até hoje: Renata é mãe de dois filhos autistas, e os cuidados especiais que essa rotina exige se tornaram parte permanente de sua vida, dentro e fora da empresa.

Ao mesmo tempo, Renata enfrentava problemas no casamento, o próprio adoecimento físico e psicológico e uma empresa que acumulava dívidas. Em 2019, procurou terapia para tentar se reconstruir. No ano seguinte, durante a pandemia, teve crises de pânico e ansiedade. A separação, em junho de 2020, encerrou o relacionamento de 25 anos devido a uma infidelidade, mas segundo ela, o casamento já havia terminado emocionalmente anos antes.

Restava então uma decisão empresarial. Com cerca de 150 unidades na rede e uma operação fragilizada, Renata e a futura sócia Elis Almeida chegaram a considerar o fechamento da empresa. Em vez de sair, Renata decidiu assumir o risco.

“Problema todos nós temos. Coisas para resolver todos os dias, todos nós temos. Mas pra tudo tem solução”. 

A reconstrução começou um franqueado por vez

Em abril de 2021, Renata comprou a parte do ex-marido e assumiu o controle da empresa. O acordo previa pagamentos por 11 anos. Elis, sua colaboradora e braço direito, tornou-se sócia. A aposta não vinha de garantias. Vinha da confiança construída ao longo dos anos.

A primeira estratégia foi direta: ouvir a rede. Renata chamou os franqueados um a um, entendeu os efeitos da pandemia sobre cada operação e separou quem ainda estava comprometido de quem permanecia apenas no contrato. O trabalho foi menos sobre abrir novas unidades e mais sobre recuperar as que já existiam.

Os resultados apareceram nos quatro anos seguintes. O engajamento da rede passou de 40% para 80%. O número de unidades cresceu de 150 para 340, incluindo uma unidade na Irlanda. O faturamento bruto anual da empresa saltou de R$ 1.800.000,00, em 2020, para uma média atual de R$ 23.500.000,00. A convenção, que começou com 27 participantes em 2023, avançou para mais de 200 pessoas presencialmente.

“O nosso negócio, de fato, é gente. Não é algo que foi criado para fazer marketing”.

O crescimento passou a caber em números

Com a operação reorganizada, a RHF Talentos entrou em outra fase. As quatro modalidades de franquia, do atendimento por cidade ao modelo nacional, e o amplo portfólio de serviços, que já incluíam gestão de temporários e estagiários, consultoria, implantação de processos de RH e atendimento às exigências da NR1, sempre fizeram parte da operação. O que mudou nessa nova fase foi o suporte ao franqueado, que se tornou o maior diferencial da RHF Talentos como franqueadora.

Renata e Elis estruturaram um modelo completo de onboarding para a rede, somado a soluções de suporte que incluem marketing, sistemas próprios, um banco de layouts e modelos de materiais e documentos, e uma universidade corporativa.

O modelo home office também sempre foi um diferencial da empresa, permitindo começar a operação sem estoque e, em muitos casos, sem uma estrutura física tradicional. Fundar uma franquia totalmente remota em 2007, quando o tema ainda estava longe de ser tendência, foi uma decisão à frente do seu tempo.

A tecnologia também ganhou espaço nessa fase. A companhia mantém parceria com a plataforma InfoJobs e trabalha com uma base de mais de 80 milhões de currículos. A expansão também passou a ser visível nos grandes eventos do setor. Depois de acompanhar de fora a Feira da ABF, Renata levou a RHF para o evento em 2024 com um estande pequeno. Em 2025, a estrutura já era mediana, e neste ano, 2026, chegou a 80 metros quadrados. Para ela, porém, o maior indicador de crescimento continua sendo o resultado de quem está na ponta. 

“Hoje eu tenho franqueados faturando 50, 60, 70 até 100 mil reais por mês”.

A reconstrução da empresa também foi pessoal

A transformação do negócio veio acompanhada de outra mudança. Depois do fim do casamento, Renata passou a reconstruir a própria identidade fora daquela relação. Recuperou a autoconfiança, tratou a dependência emocional, emagreceu 20 quilos e reorganizou a rotina para conciliar maternidade, família e liderança.

Nesse processo, também reconstruiu a vida sentimental. Há cinco anos, está casada com Murilo Brandino, e hoje descreve a vida em família como feliz e saudável. Essa nova fase também mudou sua relação com a exposição pública. Nos últimos anos, começou a produzir vídeos e desenvolveu o podcast RHF Talk, que se aproxima de 70 episódios. O canal, segundo ela, saiu de 200 inscritos no YouTube e chegou a cerca de 6.500 seguidores orgânicos com o podcast. A meta agora é levar essa experiência para os palcos.

Renata pretende começar a palestrar no próximo ano, com foco em mulheres que precisam sair de relacionamentos abusivos e em pessoas que desejam empreender, mas ainda não encontraram coragem para começar. A intenção é transformar a própria história em ferramenta de encorajamento, sem separar a empresária da mulher que precisou reaprender a confiar em si mesma.

“Eu entendi que, para eu entregar tudo isso que eu entrego hoje, eu precisava me curar internamente. Isso trouxe a coragem que eu tenho para continuar fazendo o meu negócio crescer”.

Um Legado que Continua em Movimento

A história de Renata Freires não termina na reconstrução de uma empresa. Depois de três décadas de carreira, ela chegou a um ponto em que crescimento e propósito passaram a ocupar o mesmo espaço. A RHF Talentos avançou em número de unidades, resultados, presença nacional e expansão internacional, com uma unidade já em operação na Irlanda, mas sua visão de futuro não está baseada apenas em tamanho.

Renata quer tornar a marca mais conhecida, alcançar regiões onde ainda não chegou com força e ampliar as oportunidades para quem deseja empreender. A meta agora passa também por levar a RHF para fora do Brasil, consolidando a internacionalização da marca. Também quer construir uma rede formada por franqueados consolidados e lucrativos, em vez de perseguir apenas um número maior de unidades. A lógica resume a própria trajetória: crescer, sim, mas levando outras pessoas junto.

@renatafreiresoficial