Fazer uma pergunta a um chatbot, gerar uma imagem ou resumir um documento parece uma atividade imaterial. A resposta aparece na tela em poucos segundos, sem que o usuário precise enxergar a estrutura física necessária para processar a solicitação. Por trás dessas tarefas, porém, existem servidores, redes elétricas e sistemas de refrigeração que consomem recursos.
A preocupação com essa infraestrutura começa a aparecer entre os brasileiros. A 19ª edição da Pesquisa Observatório Febraban, realizada pelo Ipespe com 3 mil pessoas entre 9 e 20 de junho de 2026, identificou que 58% consideram preocupante ou muito preocupante o impacto ambiental dos data centers. O levantamento também mostra que a inteligência artificial já está presente na percepção cotidiana da população: 92% afirmam ter ouvido falar da tecnologia.
O debate ganhou força com a expansão mundial dos centros de dados. Em relatório publicado em 14 de outubro de 2026, a Agência Internacional de Energia (IEA) analisou os desafios de integrar essa infraestrutura aos sistemas elétricos e destacou preocupações relacionadas a preços de energia, emissões e uso de água.

O impacto ambiental dos data centers também aparece como preocupação relevante, embora em patamar menor, com 58%. | Pesquisa Observatório Febraban, realizada pelo Ipespe
A demanda por energia acompanha a expansão da IA
Segundo a IEA, o consumo global de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025. Nos centros dedicados à inteligência artificial, a alta chegou a 50%. A agência projeta que o consumo elétrico total dos data centers poderá quase dobrar, passando de aproximadamente 485 terawatts-hora em 2025 para 950 terawatts-hora em 2030.
Esses números não significam que toda consulta individual consuma grandes quantidades de eletricidade. A eficiência dos modelos e dos equipamentos tem melhorado, e tarefas simples de texto podem exigir relativamente pouca energia. Entretanto, o crescimento do número de usuários e a popularização de aplicações mais intensivas, como geração de vídeo e tarefas complexas de raciocínio, aumentam a demanda total.
A questão, portanto, envolve tanto a eficiência de cada operação quanto a escala de uso. Mesmo quando uma tarefa fica mais econômica do ponto de vista energético, o consumo agregado pode aumentar se a utilização crescer ainda mais rapidamente.

A conta envolve água, emissões e infraestrutura
Os centros de dados precisam dissipar o calor gerado por servidores em funcionamento contínuo. Dependendo do projeto e da localização, isso pode exigir sistemas de refrigeração que utilizam água, além de energia elétrica para manter os equipamentos operando.
O relatório da IEA estima que os data centers estejam associados a cerca de 150 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono relacionadas ao consumo de eletricidade. No cenário central da agência, esse volume pode chegar a aproximadamente 350 milhões de toneladas em 2035. A análise também indica que quase 40% da capacidade identificada de data centers dedicados à IA está localizada em áreas com estresse hídrico elevado ou muito elevado.
O impacto não é igual em todos os lugares. A matriz elétrica, o clima, a disponibilidade de água e a localização dos centros de dados influenciam a intensidade ambiental de cada operação. Por isso, estimativas globais ajudam a dimensionar o problema, mas não determinam automaticamente o impacto de um serviço específico no Brasil.
A inovação também precisa mostrar seus custos
O crescimento da IA abre oportunidades em pesquisa, produtividade, serviços digitais e desenvolvimento econômico. A discussão ambiental não elimina esses benefícios, mas levanta uma questão sobre como a infraestrutura será planejada, abastecida e tornada mais eficiente.
Para usuários e empresas, transparência sobre consumo de recursos, eficiência dos modelos e origem da energia pode ajudar a compreender melhor os custos da digitalização. Para governos e operadores, o desafio é conciliar expansão tecnológica com redes elétricas confiáveis, uso responsável da água e distribuição justa dos custos da infraestrutura.
O usuário não precisa abandonar ferramentas de IA para reconhecer que elas dependem de recursos físicos. A questão é tornar visível aquilo que normalmente fica escondido atrás da tela. À medida que esses serviços se tornam parte da rotina, eficiência energética e responsabilidade ambiental passam a ser também critérios importantes para avaliar o futuro da tecnologia.