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O custo dos juros se transforma em um dos maiores desafios da economia brasileira
Economia
02.11.2026

O custo dos juros se transforma em um dos maiores desafios da economia brasileira

Despesas com a dívida pública superaram R$ 1,2 trilhão em 12 meses e ajudam a explicar a pressão sobre o orçamento e o crédito

O Brasil destinou o equivalente a 8,99% do Produto Interno Bruto (PIB) ao pagamento de juros da dívida pública nos 12 meses encerrados em setembro de 2026. O percentual representa o maior patamar desde janeiro de 2016, período marcado por uma recessão econômica. Em valores nominais, as despesas com juros chegaram a R$ 1,205 trilhão, segundo dados divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro.

O resultado chama atenção porque mostra a dimensão do custo financeiro do endividamento público. No mesmo intervalo, o déficit primário, que considera receitas e despesas antes do pagamento dos juros, ficou em 0,52% do PIB. Quando os encargos financeiros são incluídos, o déficit nominal alcançou 9,51% do PIB.

A diferença entre os dois indicadores ajuda a compreender o desafio fiscal brasileiro. Mesmo quando o governo consegue melhorar o resultado das contas antes dos juros, o peso dos encargos financeiros pode manter elevado o déficit total e pressionar o crescimento da dívida.

As contas estão numa situação mais precária, a credibilidade do governo do lado fiscal está no chão, o custo de oportunidade de não fazer nada é maior hoje. | Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group

Por que os juros pesam tanto nas contas públicas

O pagamento de juros depende de fatores como o tamanho da dívida, a taxa básica de juros, a composição dos títulos públicos e as condições de financiamento do governo. Quando a Selic permanece elevada, uma parcela dos títulos vinculados a taxas flutuantes pode ter seu custo financeiro pressionado, aumentando a despesa pública.

Em setembro, os juros nominais somaram R$ 107,5 bilhões, ante R$ 84,7 bilhões no mesmo mês de 2025. No acumulado de 12 meses, o valor passou de R$ 984,8 bilhões para R$ 1,205 trilhão. A dívida bruta do governo geral ficou em 82,9% do PIB no encerramento do período.

A incerteza sobre a trajetória das contas públicas também influencia a percepção de risco dos investidores. Quando cresce a preocupação com a capacidade de estabilizar a dívida, o mercado pode exigir retornos maiores para financiar o governo, encarecendo novas emissões e refinanciamentos.

O efeito vai além do orçamento federal

O custo da dívida não fica restrito aos números apresentados pelo Tesouro e pelo Banco Central. Juros elevados podem dificultar o financiamento de empresas, reduzir a disposição para investimentos e aumentar o custo de crédito para famílias. Também podem limitar o espaço disponível para políticas públicas e investimentos em infraestrutura.

Isso não significa que cada real destinado aos juros seja retirado automaticamente de uma área específica do orçamento. As despesas públicas seguem regras próprias, e a relação entre endividamento, investimento e serviços públicos envolve decisões fiscais, tributárias e monetárias.

O desafio do próximo período será combinar uma trajetória sustentável para a dívida com condições que permitam crescimento econômico. Christopher Garman afirmou à Folha que a credibilidade fiscal dependerá de medidas capazes de enfrentar a dinâmica das despesas obrigatórias, e não apenas de ajustes pontuais. C-Level

O indicador divulgado em outubro mostra que o custo do endividamento se tornou uma questão central para a economia brasileira. Mais do que observar o tamanho da dívida, será necessário acompanhar quanto custa financiá-la, como o governo administra suas despesas e se as medidas adotadas conseguem recuperar a confiança sem comprometer a atividade econômica.

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