O celular é consultado para trabalhar, conversar, pagar contas, acompanhar notícias e resolver tarefas simples. Entre uma atividade e outra, também entram vídeos curtos, notificações e atualizações de redes sociais. Quando a pessoa percebe, uma consulta rápida ao aparelho se transformou em vários minutos de navegação. Esse comportamento tem levado cada vez mais gente a rever a relação com a tecnologia.
Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 4 de novembro mostra como jovens e adultos estão tentando diminuir o tempo diante das telas. A motivação nem sempre é abandonar as redes sociais, mas recuperar espaço para atividades que perderam lugar na rotina, como leitura, filmes, tarefas domésticas, passeios e encontros presenciais.
O movimento acompanha uma dificuldade que aparece também entre adolescentes brasileiros. Na pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Cetic.br/NIC.br, 25% dos usuários de internet entre 15 e 17 anos disseram ter tentado passar menos tempo online nos 12 meses anteriores, mas não conseguiram. O dado evidencia o desafio de estabelecer limites em uma rotina cada vez mais conectada.

O tempo de uso da tela é muito importante, mas ele não conta tudo. |
Gabriel Okuda, psiquiatra do Einstein Hospital Israelita
O problema não está apenas nas horas conectadas
Contar o tempo diante do celular é uma maneira de observar o comportamento, mas não é suficiente para determinar se o uso se tornou prejudicial. O contexto também importa. Uma pessoa pode passar muitas horas conectada por exigências profissionais, enquanto outra pode apresentar dificuldades importantes mesmo com um período menor de utilização.
Entre os sinais que merecem atenção estão a dificuldade persistente de reduzir o uso, a consulta automática ao aparelho, a perda de interesse por atividades importantes e os prejuízos ao sono, ao trabalho ou aos estudos. A questão central não é simplesmente usar o celular, mas perceber quando ele começa a ocupar um espaço que compromete outras áreas da vida.
Um estudo publicado em 2025 na revista PNAS Nexus investigou os efeitos de bloquear o acesso à internet pelo smartphone durante duas semanas, mantendo ligações e mensagens disponíveis. Os participantes apresentaram melhora na atenção sustentada e no bem-estar subjetivo, além de relatarem mais tempo dedicado a outras atividades. Os pesquisadores, porém, não conseguiram separar completamente os efeitos da redução do acesso à internet daqueles relacionados à diminuição do tempo total no aparelho.

Desconectar não precisa significar desaparecer
A proposta de reduzir o uso do celular também esbarra em uma realidade prática: boa parte da vida depende dele. Trabalho, banco, transporte, comunicação familiar e acesso a serviços estão concentrados no mesmo dispositivo que oferece entretenimento. Por isso, uma desconexão completa nem sempre é possível ou desejável.
O pesquisador Thiago Alvares da Trindade, doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria, chama a atenção para a desigualdade nessa possibilidade. Profissão, renda e responsabilidades cotidianas influenciam quem consegue ficar offline e por quanto tempo. Para algumas pessoas, a desconexão é uma escolha de lazer; para outras, pode significar perder acesso a informações e oportunidades de trabalho.
Em vez de estabelecer uma meta universal de horas longe da tela, especialistas sugerem mudanças compatíveis com a rotina. Desativar notificações desnecessárias, evitar o celular durante as refeições, deixá-lo fora do quarto na hora de dormir e reservar momentos para atividades presenciais são algumas possibilidades.
O objetivo não precisa ser eliminar a tecnologia, mas recuperar a capacidade de escolher quando utilizá-la. Em uma rotina em que quase tudo passa pelo smartphone, aprender a guardar o aparelho também se tornou um hábito importante.