A possibilidade de receber atendimento médico de qualidade depende de mais do que a existência de hospitais, clínicas e profissionais. Para muitas pessoas, o custo do cuidado e o tempo necessário para conseguir uma consulta são obstáculos que interferem na maneira como percebem o sistema de saúde.
O Monitor da Saúde 2026, da Ipsos, realizado em 32 países, revelou que 80% dos entrevistados brasileiros concordam que muitas pessoas não conseguem pagar por bons serviços de saúde. Outros 76% consideram longo demais o tempo de espera para conseguir uma consulta médica, enquanto 64% avaliam que o sistema de saúde brasileiro está sobrecarregado.
A avaliação da qualidade dos serviços também revela insatisfação. Apenas 28% classificam como boa ou muito boa a assistência à qual eles e suas famílias têm acesso. Para 37%, ela é regular, enquanto 35% avaliam o atendimento como ruim ou muito ruim. Os números mostram como preço, disponibilidade e percepção de qualidade se cruzam na experiência dos pacientes.
A percepção dos brasileiros sobre a saúde passa não apenas pela qualidade do atendimento, mas também pelo acesso, pelo tempo de espera e pela prevenção. | Adriana Ghobril, líder de Pesquisas de Saúde da Ipsos Brasil

O problema vai além do preço
A dificuldade para chegar a um médico aparece de forma ainda mais clara quando comparada ao acesso a outros serviços. Apenas 39% dos entrevistados dizem que é fácil conseguir uma consulta médica na região onde vivem. Para farmácias, o cenário é diferente: 73% consideram fácil chegar a esse tipo de estabelecimento.
O contraste sugere que ter medicamentos disponíveis no comércio não significa necessariamente conseguir orientação clínica com a mesma facilidade. A jornada do paciente envolve encontrar um profissional, agendar um horário e conseguir manter o acompanhamento.
O custo também tem implicações para a continuidade do cuidado. Consultas, exames e tratamentos podem exigir despesas sucessivas, e a dificuldade de arcar com elas representa um obstáculo adicional para quem precisa de atenção frequente.

A prevenção também aparece entre as preocupações
No levantamento, 41% dos brasileiros apontaram a falta de investimento em saúde preventiva como um dos principais problemas do sistema. O país apresentou o maior percentual entre os 32 mercados pesquisados nessa questão. Outros 43% mencionaram dificuldades de acesso a tratamentos e longos períodos de espera.
Essas respostas refletem a percepção dos entrevistados, não uma medição direta dos recursos destinados à prevenção. Ainda assim, mostram que parte importante da população entende que o sistema precisa atuar mais antes do agravamento dos problemas de saúde.
O desafio é transformar acesso em cuidado contínuo
Apesar das dificuldades, 61% dos entrevistados brasileiros acreditam que a qualidade dos serviços de saúde disponíveis localmente vai melhorar nos próximos anos. Outros 31% esperam estabilidade, enquanto 9% projetam uma piora. Existe, portanto, expectativa de melhora mesmo em um cenário de insatisfação.
A pesquisa foi realizada pela plataforma online Global Advisor, entre 13 de julho e 7 de agosto de 2026, com 22.528 adultos em 32 países, incluindo aproximadamente mil participantes no Brasil. Por ser um levantamento de percepções, seus resultados não substituem indicadores administrativos sobre filas, custos ou qualidade clínica.
Os dados revelam uma questão relevante para a saúde pública: o cuidado não depende somente de tratamento disponível, mas também de condições para acessá-lo no momento adequado. Reduzir barreiras financeiras, melhorar a organização dos serviços e ampliar a prevenção são partes de um desafio que afeta a experiência dos pacientes muito antes da consulta.