Comprar uma roupa usada deixou de ser uma decisão explicada apenas pela necessidade de gastar menos. Entre os consumidores de brechós ouvidos pelo Sebrae-SP, o preço mais baixo aparece como principal motivação, citado por 71%. Qualidade dos produtos, com 45%, e sustentabilidade associada ao consumo consciente, com 43%, também influenciam a escolha.
O levantamento ouviu 400 consumidores de brechós em São Paulo, entre abril e maio de 2025. No estado, o Sebrae-SP contabiliza 7.348 pequenos negócios no varejo de produtos usados, dos quais 5.211, ou 71%, são microempreendedores individuais. Os clientes gastam, em média, de R$ 50 a R$ 100 por compra, e 32% dos entrevistados disseram comprar nesses estabelecimentos a cada dois meses.
A mudança também aparece em uma pesquisa nacional sobre hábitos de moda realizada pela Globo com mil pessoas, em agosto de 2025. O estudo identificou que 81% valorizam o consumo consciente de moda e que 42% evitam comprar roupas, calçados e acessórios com frequência para reduzir o uso de recursos naturais e a geração de resíduos. Esses números não significam que todos adotem a segunda mão, mas ajudam a contextualizar o interesse por formas alternativas de consumo.

O consumo mais sustentável e consciente é uma tendência global. | Carol Fabris Ferreira, coordenadora de Pesquisas do Sebrae-SP
A roupa usada assume novos significados
O preço ajuda a explicar a procura, mas não resume o comportamento. Encontrar uma peça diferente, procurar modelos que já não estão nas lojas tradicionais ou construir um estilo próprio também pode fazer parte da experiência. Para alguns consumidores, a revenda abre acesso a itens que seriam menos viáveis no varejo convencional.
A circulação das peças também envolve quem vende. Na pesquisa de moda da Globo, 56% dos integrantes da Geração Z que vendem roupas usadas apontaram a renda extra como motivação, enquanto 50% disseram querer diminuir o volume de itens acumulados. O comportamento conecta compra, desapego e revenda, prolongando a vida útil de produtos que poderiam permanecer sem uso no armário.
O movimento tem dimensão internacional. O Resale Report 2026, produzido pela ThredUp com análise da GlobalData, projeta que o mercado global de roupas de segunda mão alcance US$ 393 bilhões até 2030, com crescimento duas vezes mais rápido do que o mercado de vestuário como um todo. A estimativa é global e não deve ser interpretada como uma previsão exclusiva para o Brasil.

A escolha depende de confiança e uso real
A compra de segunda mão ainda enfrenta barreiras culturais. A pesquisa da Globo identifica a preferência por peças novas como o principal obstáculo à compra em brechós e canais de revenda. Isso mostra que mudar o hábito envolve mais do que comunicar vantagens financeiras ou ambientais: a condição da peça, a confiança na procedência e a experiência de compra também importam.
Para o consumidor, observar costuras, zíperes, manchas, desgaste e medidas ajuda a avaliar se o preço compensa. Em compras digitais, vale conferir as fotos, ler a descrição com atenção e verificar as regras de troca antes de concluir o pedido.
O avanço da revenda indica uma relação mais flexível com a ideia de novidade. Uma peça não precisa sair de uma loja tradicional para ter valor, desde que atenda às expectativas de qualidade, estilo e preço. O desafio é fazer com que comprar usado represente uma escolha coerente com as necessidades do consumidor, e não apenas mais uma forma de acumular roupas.