A relação das pessoas com a cidade não depende apenas de moradia, trabalho e deslocamento. Ela também é formada nos lugares onde encontros acontecem sem grande planejamento: uma praça perto de casa, a biblioteca do bairro, o café frequentado no fim da tarde ou o centro comunitário que reúne diferentes gerações. Esses ambientes ajudam a transformar a ocupação física de um território em experiência de convivência.
O interesse por esses espaços ganhou relevância em debates sobre saúde social, planejamento urbano e qualidade de vida. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou um relatório que trata a conexão social como tema importante para a saúde e o bem-estar, defendendo ações de diferentes setores para fortalecer os vínculos entre as pessoas.
A discussão vai além de criar novos equipamentos urbanos. A possibilidade de chegar a pé, permanecer com segurança, encontrar assentos, ter áreas sombreadas e participar de atividades acessíveis influencia quem consegue utilizar esses lugares. A convivência também depende de fatores culturais e econômicos, como horários, custos, acolhimento e sensação de segurança.

Nossa Comissão apresenta um caminho para construir vidas mais conectadas e destaca o impacto profundo que isso pode ter na saúde, na educação e nos resultados econômicos. | Dr. Vivek Murthy, copresidente da Comissão da OMS sobre Conexão Social e ex-diretor-geral de Saúde Pública dos Estados Unidos.
Os chamados “terceiros lugares” ampliam a rotina para além de casa e trabalho
Na sociologia urbana, a expressão terceiros lugares é usada para descrever ambientes de convivência que não são a casa nem o trabalho. Eles podem incluir cafés, bibliotecas, parques, centros culturais e outros locais em que as pessoas se encontram de maneira informal. Esses espaços permitem interações breves, conversas recorrentes e o contato entre indivíduos que talvez não se relacionassem em outros contextos.
Uma análise do Urban Institute, publicada em 2024, destaca que esses lugares contribuem para redes sociais e podem facilitar encontros cotidianos, além de oferecer oportunidades de conexão para famílias e moradores. O estudo também chama atenção para desafios de manutenção, financiamento e modernização de espaços compartilhados.
A existência de um local, no entanto, não garante que todos se sintam incluídos. Preço, acessibilidade, transporte, barreiras físicas e programação podem limitar a participação. Por isso, a qualidade de um espaço de convivência depende tanto da infraestrutura quanto da forma como ele acolhe diferentes perfis de pessoas.

Cidades mais vivas dependem de acesso e continuidade
Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Health & Place analisou dados de 665 adultos em três cidades canadenses. Os pesquisadores identificaram um efeito protetor modesto dos espaços públicos abertos sobre o sentimento de pertencimento comunitário, mas não encontraram evidências equivalentes para todas as dimensões de conexão social avaliadas. O resultado reforça a importância desses ambientes sem sugerir que, isoladamente, resolvam a solidão.
No cotidiano, a frequência pode ser tão relevante quanto a dimensão do lugar. Uma praça usada por moradores durante toda a semana, uma biblioteca com atividades regulares ou um comércio de bairro que se torna ponto de encontro pode favorecer a familiaridade e a continuidade dos contatos. Pequenas interações repetidas ajudam a construir reconhecimento entre vizinhos.
Esse cenário coloca a convivência no centro de uma discussão sobre o futuro das cidades. Projetar espaços para as pessoas não significa apenas oferecer áreas para circulação ou lazer, mas criar condições para que diferentes grupos possam permanecer, participar e desenvolver relações com o entorno. O pertencimento não nasce de uma obra isolada: depende de acesso, cuidado e uso cotidiano.