A menopausa costuma ser associada a mudanças conhecidas, como ondas de calor, alterações no sono e oscilações de humor. Mas a ciência investiga cada vez mais como essa transição também pode se relacionar ao envelhecimento do cérebro. Uma pesquisa publicada nesta quarta-feira, 4 de novembro, na revista Neurology acrescenta novas evidências a essa discussão.
O estudo acompanhou 352 mulheres cognitivamente saudáveis, com aproximadamente 70 anos, e identificou uma associação entre maior tempo de exposição ao estrogênio ao longo da vida e sinais de melhor preservação cerebral. As participantes com período reprodutivo mais longo apresentaram menos danos em pequenos vasos sanguíneos e melhor conservação da substância branca, estrutura importante para a comunicação entre regiões do cérebro.
O resultado mais expressivo apareceu entre mulheres que haviam utilizado contraceptivos orais e, posteriormente, terapia hormonal na menopausa. Esse grupo apresentou os indicadores cerebrais mais favoráveis da amostra. A descoberta não comprova que os hormônios tenham causado essa diferença, mas reforça uma hipótese que vem ganhando espaço na pesquisa sobre saúde feminina: o momento e a duração da exposição hormonal podem influenciar o envelhecimento cerebral.

Não podemos negar que vemos uma associação, um possível impacto benéfico. | Anna Marseglia, neurocientista e professora de Epidemiologia do Envelhecimento e Saúde Cerebral do Karolinska Institutet, na Suécia.
O que acontece com o cérebro na menopausa
O estrogênio participa de processos que vão além da reprodução. O hormônio atua em regiões cerebrais relacionadas à memória e à cognição e também influencia a circulação sanguínea e mecanismos ligados à inflamação. Com a menopausa, a produção de estradiol, uma das principais formas de estrogênio, cai de maneira acentuada.
Essa mudança levou pesquisadores a investigar se a transição hormonal também pode afetar a saúde dos vasos sanguíneos cerebrais. A hipótese ganha relevância porque alterações vasculares podem contribuir para o declínio cognitivo e coexistir com outros processos envolvidos em doenças como Alzheimer. The Washington Post
Outro ponto importante é o momento da terapia hormonal. Pesquisadores investigam se iniciar o tratamento próximo à menopausa produz efeitos diferentes daqueles observados quando a intervenção ocorre muitos anos depois. A condição cardiovascular e metabólica da mulher também pode interferir na resposta.

Uma descoberta que exige cautela
Apesar dos resultados, o estudo não autoriza recomendar terapia hormonal como estratégia de prevenção do Alzheimer ou de outras demências. A pesquisa é observacional e analisou um grupo específico de mulheres. Portanto, não demonstra que a exposição ao estrogênio tenha sido responsável pelos indicadores encontrados.
As recomendações médicas atuais consideram a terapia hormonal principalmente para o tratamento de sintomas da menopausa, como ondas de calor e suores noturnos, quando não existem contraindicações. A decisão depende da idade, do tempo transcorrido desde a menopausa, do histórico clínico e das necessidades individuais.
A discussão também reforça a importância de olhar para a saúde feminina de forma integrada. Pressão arterial, colesterol, diabetes, sono e atividade física fazem parte dos fatores que influenciam o envelhecimento cerebral.
A menopausa não deve ser tratada como sinônimo de perda inevitável de capacidade cognitiva. O avanço das pesquisas permite compreender melhor essa fase e suas particularidades, mas ainda há perguntas em aberto. Por enquanto, a principal orientação é buscar acompanhamento individualizado e não recorrer a hormônios com a promessa de proteger a memória.