A hipertensão arterial costuma ser associada ao envelhecimento, mas alterações na pressão também podem aparecer na infância e na adolescência. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), divulgado em outubro de 2026, identificou pressão arterial na faixa de hipertensão em 28,3% dos 6.092 estudantes avaliados em 38 escolas de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo. Outros 11,6% apresentaram valores classificados como pré-hipertensão.
Os resultados fazem parte da primeira fase do projeto Brasil Coração Saudável, que investiga fatores de risco cardiovascular entre crianças e adolescentes. A coleta ocorreu entre junho e outubro de 2026. Como os dados são preliminares e se referem a participantes de escolas selecionadas, não devem ser interpretados como retrato definitivo de toda a população infantojuvenil brasileira.
A pesquisa também identificou excesso de peso em 33,1% dos participantes, somando 19,5% com sobrepeso e 13,6% com obesidade. Entre os estudantes com obesidade, 48,4% apresentaram pressão na faixa de hipertensão. A associação reforça a necessidade de olhar para a saúde cardiovascular ainda nos primeiros anos de vida

Esses fatores, quando combinados, podem comprometer a saúde cardiovascular e aumentar a incidência de doenças cardiovasculares. | Álvaro Avezum, cardiologista, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e coordenador do projeto Brasil Coração Saudável.
O que os hábitos cotidianos revelam
O levantamento identificou que 59% dos participantes passavam mais de três horas por dia diante de telas fora do ambiente escolar. Além disso, 66% relataram apenas uma a duas horas semanais de atividade física. Esses dados ajudam a contextualizar o cenário, embora não comprovem que um único hábito seja responsável pelas alterações de pressão encontradas.
A alimentação, o movimento diário, a qualidade do sono, o histórico familiar e as condições de saúde fazem parte de uma avaliação mais ampla. O excesso de peso é um fator relevante, mas não é a única possível explicação para a hipertensão em crianças e adolescentes.
Também é importante distinguir uma triagem de um diagnóstico. Uma medida elevada durante uma avaliação escolar não confirma, por si só, hipertensão arterial. A confirmação depende de avaliação clínica e de novas aferições, conforme a idade e os critérios médicos aplicáveis.

Prevenção começa com acompanhamento regular
A aferição da pressão arterial em consultas pediátricas pode ajudar a identificar alterações que passariam despercebidas, sobretudo porque a pressão alta nem sempre provoca sintomas evidentes. A interpretação dos valores deve considerar fatores como idade, sexo e altura, além das condições em que a medida foi realizada.
Em casa, famílias podem incentivar brincadeiras ativas, caminhadas, esportes adequados à idade, alimentação variada e horários de sono regulares. O objetivo não é responsabilizar crianças individualmente, mas criar ambientes que facilitem escolhas saudáveis e reduzam barreiras à atividade física.
Os dados recentes colocam a prevenção cardiovascular infantil em evidência, mas também mostram a importância de comunicar os resultados com precisão. Identificar sinais de alerta é um primeiro passo. O acompanhamento profissional é o que permite avaliar cada caso e definir as medidas adequadas.