O mercado brasileiro de fusões e aquisições entrou em uma fase mais seletiva. No primeiro semestre de 2026, foram registradas 610 transações, que movimentaram R$ 195 bilhões. O valor representa crescimento de 22,3% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a quantidade de operações caiu 35%.
A aparente contradição ajuda a explicar o momento. Há menos empresas sendo compradas ou combinadas, mas os negócios que chegam ao fechamento envolvem valores maiores. Mais de 85% de todo o montante movimentado no período ficou concentrado em operações superiores a R$ 1 bilhão.
O movimento indica uma maior concentração de capital em ativos considerados estratégicos, capazes de gerar escala, sinergias ou ampliar a posição competitiva das empresas. Para quem acompanha o mercado, a questão deixa de ser apenas quanto dinheiro está disponível e passa a ser quais negócios estão conseguindo atrair esse dinheiro.
Esse movimento reflete uma postura mais criteriosa dos investidores, que passaram a priorizar empresas com escala, ativos de qualidade e maior potencial de geração de valor. | KPMG, na Pesquisa Trimestral de M&A do segundo trimestre de 2026.

Um dos sinais dessa seletividade aparece nos investimentos internacionais. As operações envolvendo compradores ou vendedores estrangeiros somaram 191 transações, queda de 18% na comparação anual. Mesmo assim, o valor movimentado por essas operações chegou a R$ 102 bilhões, alta de 153%.
Os fundos de private equity e venture capital também fizeram menos operações, mas movimentaram mais dinheiro. Foram R$ 36,7 bilhões no semestre, crescimento de 30,5%, mesmo com forte retração na quantidade de negócios.
Na prática, esse ambiente aumenta a importância de características como escala, eficiência, ativos estratégicos e capacidade de crescimento. Para o empreendedor que pensa em captar investimento ou vender uma participação da empresa, construir valor passa a ser diferente de simplesmente aumentar faturamento.

O próprio levantamento da KPMG mostra que setores como mineração, energia e tecnologia concentraram operações de grande porte. Em tecnologia, mídia e telecomunicações, o número de transações caiu 26% no primeiro trimestre, mas o valor movimentado cresceu 400%, impulsionado por grandes operações em telecomunicações e investimentos relacionados à transformação digital, IA e automação.
O cenário previsto para o segundo semestre continua apontando para seletividade, consolidação de setores, investimentos internacionais e transformação digital. Empresas também podem colocar ativos considerados não essenciais à venda para gerar liquidez e concentrar recursos nas áreas consideradas prioritárias.
Mais do que um aumento ou uma queda no número de fusões, os dados mostram uma mudança na lógica do mercado: o capital está se concentrando em negócios que conseguem demonstrar escala, qualidade e potencial de geração de valor.