O tempo diante do celular costuma ser observado pelo conteúdo acessado, pela duração do uso e pelos possíveis efeitos no sono e no comportamento. Existe, porém, outro aspecto menos perceptível: durante atividades que exigem atenção visual prolongada, como assistir a vídeos ou jogar, a frequência do piscar pode diminuir. Com isso, a superfície dos olhos fica mais exposta à evaporação das lágrimas.
O alerta ganhou destaque em setembro de 2026, quando a oftalmologista pediátrica Ana Paula Silverio abordou o tema durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, em Salvador. Em reportagem da Agência Brasil, a médica relacionou o uso prolongado de celulares e tablets à redução do piscar e ao aumento de queixas de desconforto ocular entre crianças e adolescentes. A Sociedade Brasileira de Pediatria também inclui a saúde dos olhos entre os pontos de atenção no uso de dispositivos digitais.
Os sintomas podem envolver ardência, vermelhidão, coceira, sensação de areia nos olhos e visão embaçada. Eles não significam necessariamente que exista uma doença ocular, mas indicam que o desconforto merece atenção quando se torna frequente. O ambiente também interfere: atividades prolongadas de perto, pouca iluminação e ausência de pausas podem aumentar a sobrecarga visual.

As mães trazem a criança ou o adolescente com essa queixa, que começou a piscar mais, além de uma sensação de desconforto. | Ana Paula Silverio, oftalmologista, em reportagem da Agência Brasil publicada em 10 de setembro de 2026
O problema está também na rotina
O uso de telas faz parte dos estudos, da comunicação e do entretenimento infantil. Por isso, a discussão não se resume a retirar os dispositivos, mas a observar quanto tempo a criança permanece concentrada em uma mesma atividade e se existem intervalos para descansar a visão.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda medidas como manter uma distância adequada da tela, fazer pausas, alternar atividades de perto com momentos olhando para longe e incentivar brincadeiras ao ar livre. A entidade também alerta que os efeitos oculares de longo prazo do uso de dispositivos portáteis ainda não estão completamente esclarecidos. É importante, portanto, não confundir sintomas já observados com a comprovação de danos permanentes em todos os usuários.
O comportamento dos adultos também ajuda a organizar a rotina. Intervalos durante os estudos, refeições sem celular e atividades recreativas fora das telas criam oportunidades para reduzir períodos prolongados de atenção visual contínua, sem transformar o uso da tecnologia em motivo permanente de conflito.

O cuidado começa antes do desconforto
Pais e responsáveis podem observar se a criança pisca excessivamente, esfrega os olhos, reclama de ardência ou apresenta dificuldade para manter a atenção em atividades visuais. Esses sinais não permitem um diagnóstico por conta própria, mas justificam procurar avaliação oftalmológica quando persistem ou prejudicam a rotina.
A automedicação com colírios não é uma boa solução. O Ministério da Saúde alerta para os riscos do uso inadequado desses produtos, especialmente daqueles que exigem indicação médica. A escolha do tratamento depende da avaliação da causa dos sintomas.
O avanço das telas tornou o cuidado ocular uma questão de hábitos cotidianos. Alternar atividades, fazer pausas e observar sinais de desconforto são medidas simples que podem ajudar a tornar o uso dos dispositivos mais equilibrado, sem ignorar a importância de uma avaliação profissional quando necessária.